35 Anos
Construído em 1974, o prédio foi inaugurado no dia 12 de setembro.
Na Praça, flores e livros
Naquele sábado, havia um movimento incomum de automóveis sobre os paralelepípedos da São João e da Oswaldo Aranha. O antigo quartel, cujo campo de futebol era frequentemente invadido pela comunidade, desaparecera. A permissão incerta de andar por aquele espaço parecia agora explícita. O que começara a cidade como praça, agora voltava à sua condição natural. Mas havia uma construção, onde trabalhadores compenetrados ainda retocavam com pincéis embebidos num branco que dava vontade de comer.
Os acontecimentos daquele ano de 1974 deveriam ensinar alguma coisa à humanidade. Mas, as notícias ora veladas, ora facilitadas, não eram confiáveis. O país tinha outro presidente militar, o que para nós era apenas um nome para ter que decorar nas aulas de moral e cívica. Nos EUA, por sua vez, seu presidente renunciava após o escândalo de Watergate. Na televisão, a imagem mostrava soldados e flores na praça de Lisboa. Eram cravos e os soldados rebelados. Fim de uma guerra de treze anos que era só para empatar.
No início de setembro, a Alemanha, dividida por um muro que não tinha data para terminar, ainda temia o setembro negro. Como o setembro de Allende, no Chile. Quantos setembros ainda seriam marcados pela intolerância? O que ainda marcaria a história da humanidade como uma cicatriz em sua memória? Nós, não sabíamos.
Aqui, do outro lado dos mundos, surgia uma praça com flores que tomara o lugar de um quartel, que havia tomado o lugar de uma praça. Não eram tempos de liberdade, mas havia flores, e mais, havia livros. Um prédio moderno e branco que contrastava com porões escuros. E, o mais importante: a gente podia entrar nele. Lá dentro, estantes repletas de livros e uma máquina jamais vista, que copiava páginas inteiras em segundos. Embora fosse setembro, os jornais não falavam em mortes ou tiros.
Naquele dia 12, homens importantes com seus ternos e gravatas se aproximaram daquele prédio escurecido pela noite. Cortaram uma fita e entraram. E assim, aos olhos de um menino de onze anos, uma casa na praça rodeada de flores abriu suas portas para oferecer arte e livros. Livros à mão cheia, que manda o povo pensar.
Após três décadas e meia, nos damos conta que espaços públicos como este pode fazer a diferença nos caminhos de crianças e jovens. O Teatro, a Biblioteca e as galerias de arte demonstram que o Centro Cultural José Pedro Boéssio está vivo, pois aqui ouvimos as vozes do tempo. É como se o lugar falasse em nossos ouvidos, carpe diem!
Jari Mauricio da Rocha
Diretor do Centro Cultural
José Pedro Boéssio